Notícias e Destaques Panorama atual do Mieloma Múltiplo no mundo

por Edvan de Queiroz Crusoe

O primeiro registro de paciente acometido por mieloma múltiplo data de 1844, mas é sabido que, como outras doenças, o MM tem algumas evidências de achados ósseos em escavações do antigo Egito e outras regiões europeias. O primeiro caso de mieloma relatado nas Américas foi em Chicago no ano de 1894. Passados mais de 150 anos do primeiro registro oficial, ainda permanecemos sem elucidação  sobre qual a causa e porque este mal acomete a nossa espécie, e interessantemente de outros animais.

O mieloma é uma doença relativamente rara e segundo informações da Sociedade Americana do Câncer nos Estados Unidos da América o risco durante a vida de apresentar tal doença é de  1 em 143, o que corresponderia a (0.7%). Para o ano de 2018 são estimados cerca de 30770 novos casos (16400 homens e 14370 mulheres). Os dados são similares com as estatísticas europeias que giram em torno de 39 mil novos casos por ano, e diferentes das evidências de incidência nos países asiáticos que é inferior. Na América Latina existem poucos estudos epidemiológicos para identificar o possível número de casos.

Nos últimos 15 anos houve uma revolução em vários frentes nas pesquisas das gamopatias monoclonais, incluindo-se aí o mieloma múltiplo. Demos um grande salto para melhorar a sensibilidade de novos testes para identificar mais precocemente a doença e desta forma iniciar tratamento em fases iniciais. Assim como, tivemos desenvolvimento de novas ferramentas de imagens e testes moleculares para avaliar a qualidade e agressividade da doença. Entretanto, como principal marco nos últimos 15 anos temos o desenvolvimento de novas terapias que diretamente permitiram triplicar a sobrevida dos pacientes, e ainda mais reconfortante, com manutenção da qualidade de vida desses indivíduos.

As terapias para os diferentes tipos de cânceres vêm passando por uma grande transformação e o mieloma múltiplo foi um desses felizes exemplos. Iniciamos na década dos anos de 1950-60 com a era dos quimioterápicos, que são terapias ditas convencionais. Migramos para as terapias alvo até chegarmos na imunoterapia, que são tratamentos que reestabelecem o sistema imunológico dos pacientes. O empenho de muitos pesquisadores e cientistas em todo o mundo vem permitindo esse fantástico avanço na terapia, mas infelizmente agora nos deparamos com outra problemática que é o acesso aos novos fármacos. No Brasil demoramos mais de 10 anos para termos uma nova aprovação depois do bortezomibe e talidomida. Felizmente em 2016 iniciamos uma sequência de aprovações com carfilzomibe, em 2017 daratumumabe e por fim lenalidomida, elotuzumabe e ixazomibe. A despeito da disponibilidade de todos novos fármacos , o uso efetivo está distante da realidade de vários pacientes com MM, não só no Brasil. O custo com tais medicações preocupa toda a comunidade científica, operadoras de saúde e o próprio governo. Assim poderíamos nos equiparar a qualquer outra nação desenvolvida que permite o uso das melhores terapias e estaríamos neste mesmo patamar. Entretanto, a grande maioria dos pacientes no Brasil são tratados no sistema único de saúde que ainda não possui subsídios para liberar tais medicamentos.

Como resumo temos um panorama muito favorável aos pacientes com mieloma múltiplo globalmente, com novas tecnologias diagnósticas e terapêuticas. Identificamos um aumento significativo de sobrevida dos pacientes com ganho na qualidade de vida. Entretanto, cabe uma importante reflexão de como iremos solucionar a conta a ser paga e permitir um acesso amplo de todas as novidades para a maioria dos pacientes.

 

 

 

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Edvan de Queiroz Crusoe

Médico Hematologista- Universidade Federal da Bahia- Pesquisador, Membro da International Myeloma Society, Comitê de Gamopatias da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia.