Notícias e Destaques Alimentação x Ansiedade

“(...) Os maiores e mais importantes problemas da vida são num certo sentido insolúveis... Eles nunca podem ser resolvidos, apenas superados... Esta “superação”, como chamamos, consiste em um novo nível de consciência. Algum interesse maior ou mais amplo surgiu no horizonte da pessoa, e através desta ampliação de visão, o problema insolúvel perdeu sua urgência. Não foi resolvido logicamente em seus próprios termos, mas desapareceu quando confrontado com uma nova e mais forte tendência da vida (...)”.Entre goles de uma deliciosa kombucha de maçã e a leitura de um bom livro de psicologia positiva, me peguei reflexiva com a citação de Jung (1931,1962, pp. 91f), livro em uma mão e uma taça em outra, toca o telefone me despertando daquele transe de pensamento.


A ansiedade na voz do outro lado era tamanha que me deixou por alguns segundos desorientada.

Fechei os olhos, inspirei fundo, recobrei minha calma e consciência e iniciei a conversa. Me dei conta que falava com uma das minhas clientes mais antigas e ansiosas que já tratei. Carolina era uma cliente querida, disciplinada e dedicada, havia há alguns anos me buscado para auxiliá-la em sua compulsão alimentar, resultado e sintoma de um mal maior que a acometia, uma ansiedade crônica.

Nosso trabalho consistia em um planejamento estratégico alimentar, associado ao tratamento comportamental de coaching e acompanhamento. Ela estava controlada, feliz, saudável há muitos meses já, mas algo a fez sair de seu eixo e recobrar o stress pelo qual havia buscado apoio e direcionamento.

Há cinco semanas vinha sentindo fortes dores de cabeça que mascarava com doses de analgésicos diários, quando percebeu que as dores só aumentavam, resolveu procurar ajuda médica. Há cerca de 2 semanas recebeu a notícia de um pequeno tumor, ainda sem diagnóstico confirmado, mas que desencadeou uma crise aguda de ansiedade que a fez cair em compulsão, purgação e culpa, um quadro clássico de transtorno alimentar criado por um medo maior.

Há 1 semana, felizmente o diagnóstico tinha sido favorável, um tumor benigno, pequeno e passível de tratamento, nada com que precisasse se preocupar tão gravemente, mas que desencadeara um novo ciclo de descontrole emocional e alimentar.

Carol estava me ligando para intensificar e reiniciar nossas conversas de coaching nutricional. Ela precisava de apoio e orientação, retomar suas metas e seguir novamente nos trilhos.

A ansiedade e estresse, como os vividos por ela, são importantes fatores que interferem diretamente no desequilíbrio alimentar. E esta condição infelizmente afeta até 69% da população brasileira e cerca de 18% da população mundial. Nosso corpo reage física e mentalmente aos sinais extremos, que ativam processos hormonais e nervosos para uma condição de alerta. Os sintomas induzem um estado pró-inflamatório, resultando em disfunções endoteliais e hormonais e contribuindo para manter o ciclo vicioso do estresse, não apenas fisiológicos, mas, também, psicológicos e comportamentais.

Neste contexto as conversas frequentes e estratégias de atenção e metas de comportamento alimentar ajudavam a recobrar a consciência e inteligência emocional, principalmente na hora das escolhas alimentares, um dos sintomas mais clássicos de descarga emocional para Carolina.

Respiramos juntas e começamos nosso bate papo, traçamos novamente as estratégias nutricionais baseadas num cenário de tratamento de ansiedade. Neste âmbito, precisava relembrar as conversas sobre os carboidratos complexos, que são metabolizados de forma mais lenta e gradativa, mantendo a glicemia (açúcar no sangue) de forma mais controlada e garantindo um efeito calmante, assim uma dieta rica em frutas legumes e verduras trariam um alto conteúdo de energia associado à fibras e controle da glicemia.

Carol ainda lembrou o quão confortável se sentia em desenhar os horários e tipos de suas refeições, usando um cardápio estruturado, uma vez que saltar as refeições ou comer muito carboidratos simples geravam uma oscilação muito grande do açúcar sanguíneo, traduzindo este efeito em nervosismo e descontrole.

Numa conversa amistosa, repassamos alguns pontos importantes que se tornaram metas. Nosso sistema nervoso entérico (intestino) já é considerado nosso segundo cérebro, uma confirmação disso era o que Carol sentia como “as borboletas” no estômago ou de maneira mais desagradável como cólicas intestinais, sinalizando as respostas fisiológicas ao estresse.

Uma vez que o eixo do intestino-cérebro é muito importante na manutenção da saúde emocional, já que o intestino possui cerca de 90% dos receptores de serotonina, torna-se crucial que pensemos nas estratégias de tratamento deste órgão, então o consumo de 2 itens alimentares neste panorama tornou-se uma meta semanal a ser conquistada.

O consumo de alimentos ricos em microorganismos benéficos como kefir, natto, tempeh, iogurtes, vinagre de maçã, kombucha e a suplementação de pré e probióticos tornou-se parte integrante do planejamento alimentar além de ser considerado um agente de distração psicológica, como o mecanismo mencionado por Jung, se ela optasse pela produção própria de alguns destes itens.

Durante nossa conversa, Carolina pediu licença e se levantou por 3 vezes para tomar uma xícara de café. Tão benéfico em alguns momentos, aquela era uma situação em que o café deveria ser posto de lado. A cafeína aliada a um momento de estresse agravava o quadro de ansiedade dela, fato este que ela descontava no cafezinho como forma de aplacar seu nervosismo para não descontar em comidas, forma clássica de substituição alimentar para evitar culpa.

No entanto, a forma como estava tomando o café estava agravando ainda mais seu quadro emocional. O exagero do cafezinho associado ao açúcar adicionado, gerava efeito rebote dos níveis de glicemia e liberação de serotonina e dopamina, hormônio que controlam apetite, humor e bem estar, aumentando sua ansiedade e busca por comida, aumentando seu estresse e compulsão quando perdia o controle. Neste momento, outra tarefa foi desenhada, a eliminação temporária do café por uso de terapia com chás calmantes como as flores jasmim, camomila, lavanda ou uso de frutas como maçã e limão, mas claro... sem adoçar com o açúcar e associado aos suplementos pré e probióticos para ganhar mais consistência.

Concordamos que semanalmente nos falaríamos e ela deveria me contar como havia passado seus dias, seus medos, recaídas e dificuldades, a foto de seus pratos serviriam de material objetivo para seu progresso e evolução comportamental. Sua meta era que os pratos fossem ricos em folhas verdes escuras, legumes, ovo, cereais integrais e sementes como fonte de magnésio e zinco, nutrientes essenciais no desenho de comportamento ansiolítico. Alimentos fontes de aminoácidos como triptofano e tirosina, fontes de vitaminas B3 e B6 como a banana, cacau, abacate, aveia e castanhas seriam usados como estratégia de controle serotonina-dopaminérgicos.

Alimentos anti-inflamatórios e ricos em antioxidantes também deveriam ser incluídos como forma de combater o quadro negativo de resposta fisiológica gerada pelo estresse vivenciado; então os peixes ricos em ômega 3, gorduras monoinsaturadas como de castanhas, abacate e azeite de oliva e coco, antioxidantes e fitoquímicos das frutas vermelhas, maçãs, ameixa, brócolis, aspargos, beterraba, cenoura, tomate, alcachofra, berinjela e condimentos como açafrão e gengibre deveriam ser incorporados diariamente e deveriam aparecer nas fotos.

A causa de sua ansiedade foi disparada por uma antecipação do medo de uma doença antes mesmo de ter sido confirmada, mas que já desencadeara um quadro cíclico disfuncional que culminou com o desequilíbrio nutricional e hormonal da Carol, trazendo consequências em seu peso, ânimo e auto estima, reforçando um ciclo triste vicioso. Contudo, graças às conversas, a terapia alimentar seria nossa ferramenta e, felizmente sua percepção e conhecimento ainda estavam por ali adormecidos e bastava acordá-los para recuperar os estragos causados por seus pensamentos pois nada, “Nada é tão nocivo como antecipar desgraças.” ...já dizia Sêneca, mas na cozinha ainda encontramos uma excelente terapia.

 

 

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Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.