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“A felicidade é um bem que se multiplica ao ser dividido.” (Maxwell Maltz)

 

Esta é com certeza uma máxima do Carnaval. Período do ano em que a maioria esquece um pouco de seus problemas, afazeres e alguns deveres e se juntam às ruas, livres e leves para dançar, curtir e sorrir. Celebrar a alegria, conhecer novas pessoas e espalhar felicidade.

Era um sábado de pré carnaval, bastante calor e eu estava sentada numa praça ouvindo a folia na rua, quando recebo uma mensagem de uma cliente perguntando sobre como sugeriria que alterasse sua dieta no período de carnaval. Ela, claramente, já havia assumido a postura de abandonar quase tudo e queria um endosso para aquela atitude.

Aquela questão me levou à outra... Normalmente nesta época do ano as pessoas abandonam completamente suas metas de saúde em detrimento à uma festa, retomam hábitos ruins que normalmente poderia levar a cabo todo um resultado positivo conquistado com sacrifício ao longo dos meses. Me peguei divagando sobre isso e sobre as minhas atitudes perante ao Carnaval. Será mesmo que é preciso abandonar tudo em nome do Carnaval, não seria possível conciliar ambas as coisas com moderação e curtir de uma forma saudável?

Peguei o telefone e liguei para ela, queria vê-la, somente uma conversa pessoal teria um tom mais aprazível e efetivo. Concordo que a festança deva ser curtida, aproveitada e a felicidade multiplicada. Sou a favor de uma facilitação da alimentação para a socialização e que esta é a forma mais saudável de se viver a vida, em meio comunidade. Mas não precisamos exagerar, não é mesmo?

Conversamos por algum tempo, ela era portadora de uma doença grave mas queria uma orientação para curtir como todo mundo, com um copo de bebida na mão. Uma festa regada ao calor do verão brasileiro, muita gente e desinibição...e eis que surge a dúvida. Como preservar a saúde num momento como este? Na realidade a pergunta não é bem esta (rsrsrs), mas está relacionada. A questão central é “se” e como podemos beber durante o carnaval.

Ignorar a questão com bloqueios e negativas não é o mais sensato a se fazer do ponto de vista educativo então ampliar os limites, liberar as amarras e orientar é a melhor conduta de um profissional de saúde.

Antes de tudo é preciso dizer que jamais endossarei o consumo de álcool de maneira generalizada, o álcool faz mal à saúde e é fator de risco para doenças, o álcool em momento nenhum se torna uma opção saudável do ponto de vista fisiológico. Contudo talvez do ponto de vista social, possamos pensar em contrário para alguns momentos específicos e sim, o Carnaval é um destes momentos e não podemos fingir o desconhecimento deste fato.

Durante a conversa com Ana, pedi que ela parasse um pouco, relaxasse, esquecesse aquela ansiedade e receio que a dominavam e respirasse profundamente. Pedi que tomasse consciência de seu corpo e sua saúde e somente assim conseguiria perceber que continuar a seguir as orientações de alimentação na íntegra, que não as abandonasse completamente e que incluísse, moderadamente, sua bebida seria sua melhor opção.

Abandonar tudo por medo de falhar é o maior erro praticado pelas pessoas que acham que um erro justifica outro e é neste momento que põe tudo a perder e a culpa toma conta...Ana respirava fundo e calmamente, seus olhos brilhavam e o medo da negativa ou repreensão pareceu ter ido embora.

Ela estava aliviada e olhava para mim com intensa curiosidade para os próximos passos.

Falamos então da escolha do tipo de bebida, que é fundamental, pois os níveis de álcool e suas concentrações e volumes de ingestão são demasiadamente diversos. Sugeri que escolhesse apenas um tipo e não misturasse outros e, principalmente que não ultrapassasse o limite diária tolerável, em seu caso duas latas de cerveja ao longo do dia.

Parecia demasiado limitante, mas sua condição e tratamento não permitem extrapolações, nem mesmo vejo aumento significativo de bebidas para indivíduos saudáveis, mas não posso “tapar o sol com a peneira”. Ana ficou feliz o suficiente com o que para ela era uma concessão; talvez somente o fato de não se sentir proibida já satisfizesse seu desejo, sem mesmo precisar chegar a beber de fato. Muitas vezes somos levados por atos mais emotivos e comportamentais que propriamente de necessidade fisiológica e esta consciência e compreensão deve ser explorada em nosso auto conhecimento.

(Uma observação educativa neste contexto devia ser pontuada. O limite máximo é de 14 unidades de álcool por semana e devemos dividir este número ao longo dos dias garantimos melhor processamento fisiológico e satisfação diária. A título de informação uma lata de cerveja possui classificação de cerca de 1,6 unidades de álcool).

Alegria no olhar e bebida definida... mas eu ainda não estava satisfeita. Minha maior preocupação era o efeito tóxico do álcool. Por ser uma molécula metabolizada pelo fígado, assim como outros medicamentos e drogas também o são por este órgão processados, todos nós o sobrecarregamos quando bebemos demais, no entanto, alguém em tratamento de câncer ou mesmo tratamento medicamentoso para uma simples dor, pode extrapolar o limite de funcionamento hepático adequado, o que geraria uma lentificação do processo de eliminação do álcool no corpo, prolongando seus efeitos tóxicos, desidratantes, processos inflamatórios, aumento de sintomas de intoxicação (dores de cabeça, ressaca etc...) e proliferação de células neoplásicas.

No cerne desta questão ainda precisamos pensar no calor. Esta época do ano é verão e sempre está muito quente, associando-se a folia e exposição solar ao consumo de álcool, que por si só causa desidratação, então uma importante recomendação não poderia ser esquecida. Para quem decide aproveitar a festa com bebidas alcoólicas aumentar a hidratação torna-se crucial. Água e água de coco são os principais e melhores hidratantes corporais e como são também bebidas, podem ser intercaladas com os goles de álcool para manter-se hidratada e ainda diluir seu efeito nocivo durante a ingestão.

Ana, como de sobressalto parecia ter sido iluminada, empolgada sugeriu que ocupasse uma das garrafinhas (da bebida) com água para sua hidratação sem que se sentisse fora da folia. Idéia que foi prontamente aceita e ambas ficamos felizes com o provável resultado!

De uma agradável conversa surgiram pontos pessoais, uma viagem à praia seria o destino de Ana, então outro ponto fundamental precisava ser comentado. O calor e a desinibição causada pela bebida podem fazer com que percamos um pouco o controle ou consciência completa dos atos, portanto sempre bom lembrar que bebidas, volantes e ambientes aquáticos não devem coexistir, assim preservamos a vida de todos os envolvidos nesta grande festa.

              

Continuamos nossa conversa com uma caminhada em um jardim em frente a clínica e de modo descontraído a mensagem que queria transmitir seria mais bem aceita e fixada.

Manter-se alimentada enquanto se toma uma bebida alcoólica é imprescindível. Isso minimiza os efeitos nocivos da bebida, uma vez que com o estômago cheio, o álcool ingerido começa a ser misturado e diluído em meio à comida e fluidos digestivos e sua absorção é mais lenta já que o esvaziamento gástrico é diminuído e a passagem do álcool para absorção intestinal fica atrasada, afinal precisamos processar os alimentos ali presentes.

Desta forma, níveis mais baixos de álcool são liberados ao longo do tempo, minimizando os efeitos desagradáveis. Dito isso, jamais beba em jejum ou prolongue muito o intervalo entre refeições se estiver pensando em beber.

Pensando comida, lembramos de nosso peso, todos nós nos preocupamos com a balança e não queremos chegar ao final do período derrotados por ela. O álcool é uma molécula altamente energética (só perde para gordura), portanto, se não gastarmos energia em atividades diárias a tendência é que esta energia extra se acumule nas indesejáveis gordurinhas. Pense naquela dobrinha que grita quando você se olha ao espelho. Oremos... mas reze fazendo algum tipo de exercício para garantir efetividade de tal prática e ajudar os Santos a realizarem alguns milagrinhos (rsrs).

Um outro ponto curioso e que deve ser levado em consideração quando se vai beber é que o consumo de bebidas alcoólicas aumenta o desejo inconsciente por comer (parece que nada nos favorece não é mesmo?). E quem é que não associa um happy hour regado a bebidas e snacks?! Todos nós! Assim, manter o padrão rígido de horários definidos para as refeições pode minimizar o ato de beliscar e o ganho extra de peso durante este período e, novamente...associe a atividade física e tudo vai dar certo, confie.                   

 

Fim da sessão, toda aquela conversa me deu vontade de abrir uma garrafa de vinho. Bebida venerada como saudável e quase que imune às críticas não podia me escapar à uma boa reflexão. Aquela taça de vinho tinto com o apelo de fonte de polifenóis antioxidantes, justificam seu consumo?

E se garantirmos uma alimentação regrada, incrementada em alimentos antiinflamatórios, potencializando o funcionamento do fígado e garantindo a hidratação, será que estamos liberados para curtição sem riscos ou ressaca, o mal mais temido mas nem mesmo por ele evitado?

A resposta é: Não. A tolerância ao álcool é completamente individual, geneticamente codificada. As pessoas possuem maior ou menor codificação genética para expressão da enzima de processamento de álcool, além disso sua resposta individual de peso, padrão de distribuição corporal, o percentual de gordura, entre outros fatores ambientais que justificam o quanto conseguimos beber e não sentir seus males.

De outro lado, o potencial antioxidante dos flavonóides de um vinho tinto não são suficientes para evitar o estrago das moléculas de álcool com ele associado. Outros alimentos como berries, uva, chás, nozes e amêndoas, maçãs e até chocolate amargo entre outros deliciosos alimentos são tão ou mais protetores que uma taça de vinho, portanto não por esta estratégia nos renderemos à bebida, ficamos apenas com a idéia de que gostamos realmente de um brinde, associado à momentos sociais e agradáveis, mas nunca como justificativa para a bebedeira, tendo em mente a plena consciência de nossas escolhas.

E quando pensamos no mal da bebida o que vem logo em mente é a ressaca. A derrota moral no dia seguinte é a única triste lembrança do que em teoria foi um dia de diversão, mas que esquecemos e estamos pagando o preço com nosso corpo.

Resultado principalmente do efeito tóxico, da inconsistência do sono (outro grande problema) e desidratante do álcool, a ressaca pode ser minimizada com os procedimentos com Ana comentados, muita disciplina e determinação, muito amor próprio e ainda um segredinho, um fitoquímico que auxilia na indesejável ressaca: o óleo de borragem, poderoso agente antiinflamatório promissor na prevenção da ressaca.

Resumindo, manter-se alimentado adequadamente ao longo do ano e não se abandonar por apenas 4 dias de folia é primordial. Aumentar o aporte prévio do óleo de borragem associado ao consumo de água, chás como o boldo, ruibarbo, cáscara sagrada, chá verde e preto, café, frutas vermelhas, suco integral de uva e legumes vermelhos e verde escuros, todos ricos em antioxidantes e potencial anti-inflamatório garantem uma folia mais saudável, menos dolorosa e o melhor, com bons momentos que serão saudavelmente lembrados!

E nesta toada, a alegria do carnaval se estenderá por todo o ano. Bom carnaval!

 

 

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Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.