Notícias e Destaques Diário de Um Paciente: Grande Louquinho

Minha gente. Alguns textos são mais antigos mas, como o assunto é interessante, e ainda não tinha contato com vocês, resolvi reeditá-los. Tenho certeza que será muito bom para aqueles que estão passando ou ainda vão passar por isso.

Quinta-feira (Abril/2016), show do Coldplay. Mas eu tinha um programa muito melhor... Ficar internado para coletar minhas células tronco. Programão!!! Parece que eu teria um encontro com um “Maluco enorme”. Não!... Espera aí... Era um... “Grande maluco”... Não, também não... Era um “Grande louquinho”... ou algo assim. Bem, essa droga iria atiçar minhas células-tronco como os fãs do Coldplay e elas poderiam ser coletadas com maior facilidade no meu sangue.

Que coisa linda! Lembrei da minha infância... Vocês devem estar pensando “Que bom, quer dizer que o negócio foi legal então?”. É... não é bem assim. Quando tinha 6 anos, meu cachorro ficou louco. Ele teve que ser sacrificado depois de morder a família toda. Não vou entrar em detalhes, mas o corpo de bombeiros ficou das 5 da tarde até as 10 da noite para levar o cachorro que, depois de vários tiros, ainda saiu sacudindo ferozmente uma jaula de aço como um dinossauro do “Jurassic Park.” Depois disso, todos tivemos que tomar vacina antirrábica. Na época, há quarenta e tra-lá-lá anos atrás, tivemos que tomar 21 doses diárias da vacina que era aplicada através de uma injeção na barriga. Com 6 anos de idade. Preciso dizer que prefiro gatos?!

Mas como me lembrei disso? O “Grande Louquinho” era aplicado da mesma forma. Aliás, não uma, mas duas injeções matinais na minha barriga. Seis dias dessas “doces” lembranças.

Mas nada se compara com a própria coleta. Ainda não sei dizer direito o que me aconteceu. Só sei que tenho duas marcas muito suspeitas no meu pescoço.

Voltando. A coleta foi a coisa mais estranha pela qual já passei. Primeiro me levaram para uma mesa de operação onde não vi nada. Quando acordei já havia vários tubos saindo de mim (dessa vez nem disfarçaram, nada de veinhas, foram direto na jugular, queriam meu sangue messmo). Parecia um pequeno ramo de “flores hightech” ou, como eu apelidei, um “dreadpiercing” saindo do pescoço.  No dia seguinte logo cedo, fui conectado à máquina. Vários tubinhos saíam da máquina e eram conectados aos tubinhos da minha jugular (aliás, descobri um novo significado para o termo “estar conectado”). A máquina fazia um barulho infernal. Não que fosse muito alto, mas imagina ficar conectado por quase 5 horas com uma máquina de lavar roupas. É mais ou menos isso. Os tubos então seguiam um caminho na máquina impossível de ser seguido. Parecia um fliperama com vários giroscópios e os tubos serpenteando por aqueles caminhos. Embaixo da máquina, um grande compartimento com um recipiente grande o suficiente para coletar muito sangue. Disseram-me que o sangue apenas passava por ali, mas como o compartimento ficava fechado, difícil ter certeza. Bom, o quadro todo era uma cena de um filme de ficção... ou de terror, já que estamos falando em vampiros.

Lembrei-me de um programa da National Geografic. Mostrava uma tribo numa parte deserta da África. Eles não tinham muito o quê comer. Possuíam uns poucos cabritos, mas se comessem os cabritos não restaria nada. Então, eles seguravam o cabrito e o chefe da tribo chegava bem perto com um arco e flecha bem pequeno (cerca de uns 30cm) e com precisão cirúrgica, lançava a flecha bem na jugular do bichinho. Imediatamente começava a jorrar o sangue. Eles então coletavam o suficiente para não prejudicar o cabritinho e imediatamente tampavam o corte com uma mistura cicatrizante, feita de barro. Assim eles tinham algum suprimento de proteínas e o bicho sobreviveria para outras coletas. Estava me sentindo o próprio cabritinho esta semana. Vai saber quantos vampiros consegui alimentar.

 

Coletaram também minhas células tronco. Elas deveriam ser re-implantadas em uns 15 dias. Mas não vão. Ao que tudo indica, apesar de estarem muito boas, meus ossos continuam se desfazendo, o que denota um avanço da doença. Vou recomeçar a quimio. E o auto-transplante só vai ocorrer lá para outubro. Até lá, vou continuar escrevendo, quer dizer, se meus ossos não virarem gelatina antes disso.

 

Ah, lembrei do nome do remédio, é “Granulokine”.


 

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Confira outros textos da coluna Diário de Um Paciente com Linneu:

A primeira vez a gente não esquece

Igual de bebê

Super-heróis

Mascotinho

Limites

Por que eu?

Mel Falante

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Broncas e Bicicletas

A última...por enquanto!

Aventuras hospitalares

Cada dia Conta

 

 

 

 

 

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

Veja todos os textos na fanpage: Memórias de um Mieloma – Mieloma Diaries https://goo.gl/AqJck7