Notícias e Destaques Malefícios dos Agrotóxicos

Estava chegando o fim de semana, enquanto muitos se preparavam para a tarde livre, eu preparava uma apresentação para aquele sábado que iniciaria com um debate importante sobre o malefícios dos agrotóxicos.

 

Seria um tema importante, interessante e bastante complexo. Iniciei a preparação com dados mundiais e brasileiros sobre o uso dos agrotóxicos no Brasil. Infelizmente somos o maior consumidor desses produtos no mundo, há quase 10 anos. Queria abordar todos os aspectos envolvendo seus malefícios, mas quando iniciava o debate, perguntas começaram a surgir em outra direção, mais prática.

 

Então percebi que de maneira geral a população está informada por notícias dos males que o consumo de produtos químicos podem fazer, mas pouco sabem o que é, porque são usados, como chegam a sua mesa e como devem ser consumidos.

 

Iniciei então os trabalhos com o panorama atual. A realidade é que o uso de defensivos agrícolas se iniciou com relativa boa intenção, a de aumentar o rendimento produtivo das colheitas e colocar no mercado alimento suficiente para a população, além de gerar múltiplos empregos e erradicar a fome. No entanto, o que se inIciou como um ideal, foi deformado pela ignorância e práticas corruptivas mundiais.

 

O fato é que o uso dos defensivos se iniciou como promessa num livro em branco, a partir de manipulação de pragas e vegetais e pouco se sabia sobre seu efeito na biologia humana. Todavia, anos de evolução e estudo já redesenharam as páginas deste livro que apontam o rumo que devemos tomar. E eis que alguém grita ao fundo: Arrancar as páginas e começar de novo...rsrsrs. Brincadeiras à parte, mas com fundo de verdade!

 

Mas, falando sério, a direção a ser seguida daqui para frente está na diminuição sistemática do consumo de produtos que foram cultivados com base de tóxicos químicos. Isso porque as consequências descritas na literatura englobam desde as alergias; os distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, reprodutivos e neurológicos; às neoplasias; mortes acidentais e até suicídios. Então o ar pesou. Parecia uma câmara de ar rarefeito. Respirei fundo e continuei, o tema era denso e longo.

 

A concentração da produção agrícola virou um ciclo vicioso, com o início do uso de agrotóxicos, pois esta era uma necessidade inevitável devido a monocultura e, as promessas feitas com as sementes transgênicas só fizeram aumentar esse uso. Todavia, os agroquímicos já não alcançam mais os efeitos esperados, pois a natureza ainda detém o poder sobre o homem. É soberana e nos ensina; ela tem logrado êxito em se adaptar e assim, o humilhado homem necessita de maiores quantidades de agrotóxicos para  talvez sequer ter o mesmo resultado. A conclusão: uma civilização inteira doente.

 

As intoxicações crônicas pelo consumo dos alimentos contaminados com estes produtos agrícolas são as mais difíceis de diagnosticar, seus efeitos podem aparecer depois de um longo período de exposição e se acumulam no organismo ao longo dos anos de consumo. No Brasil as intoxicações por agrotóxicos já ocupam o segundo lugar entre as intoxicações, no entanto ainda temos um processo de subnotificação, ou seja, grande parte das pessoas que são contaminadas terminam por se auto medicar, de forma que não ficam sequer sabendo as causas de suas doenças. O agrotóxico tornou–se um mal camuflado.  

 

Mas como sempre depois da tempestade vem a bonança, o cenário alimentar atual vem sugerindo um conforto no  panorama de notificação e consumo seguro de alimentos. Agências internacionais já sinalizam limitações de uso, programas de fiscalização e controle, promovem maior apoio e educação para o cultivo e consumo consciente até a evolução do ‘não uso’ ou, seria regressão das regras de cultivo? Voltar às raízes ancestrais das práticas de cultivo...esta é uma boa reflexão que vale ser feita.

 

No mundo virtual pululam temas sobre o assunto: desde ensinamentos até mitos e massificação de medo. Deste quadro surgem milhares de conceitos e diariamente somos praticamente levados na enxurrada do marketing comercial. Alimentos vivos, orgânicos, alimentação verde, alimentação “clean”, dietas que reforçam apelos ancestrais, naturais, enfim... uma enormidade de designações e condutas que afunilam para uma única perspectiva: o ato de comer consciente.

 

Podia ouvir as vozes inconscientes que bradavam como slogans de guerra, com a assinatura quase universal, algumas vezes deturpada: “Somos aquilo que comemos”. Não aos agrotóxicos. Coma somente os orgânicos!

 

Sim, é fato incontestável que alimentos orgânicos são mais saudáveis, pois possuem maiores níveis de nutrientes, por simples respeito às necessidades biológicas daquele tipo de cultivo, melhor solo, quantidade de água, período de cultivo, tempo de colheita, etc...

 

Uma breve pausa para reflexão foi feita neste momento. Alguém sabia porque os alimentos cultivados naturalmente são mais ricos em fitoquímicos e benefícios?

 

Mais uma vez o que se ouviu no auditório foi somente o barulho das cadeiras...O triste quadro atual do empoderamento de informação está na deficiência de sua qualidade ou muitas vezes no desinteresse de aprofundamento e compreensão. A busca do conhecimento deve dar passos além da primeira página de pesquisa. Esta era uma crítica importante, que conjecturei em silêncio...

 

Me peguei divagando sozinha quando retomei o tema. Se respeitarmos o tempo de plantio, crescimento e colheita dos alimentos, temos alimentos amadurecidos naturalmente, à seu tempo, tendo tempo hábil de se desenvolver por completo, comparemos com o crescimento do ser humano e o desenvolvimento de suas habilidades.

 

Já os compostos químicos naturais dos alimentos que nos fazem bem como os antioxidantes estão, em nível de comparação, equivalentes às nossas células do sistema imunológico. Ou seja, quando o alimento é exposto à uma agressão natural do meio ambiente ele se defende produzindo moléculas de combate. Então um alimento exposto sem “remédios” acaba gerando um quadro maior de moléculas de defesa, afinal ele tem que combater aquela exposição sozinho, sem ajuda externa. Resultado: quando consumimos mais estes alimentos, mais fitoquímicos que nos são também protetores, como o são às plantas, ingerimos.

 

Mas isso é somente a rasa superfície do que levamos à mesa. A verdade é que estamos colocando no prato mais manchetes e comendo menos conteúdo. A prática do cultivo orgânico tem como definição não somente o não uso de produtos químicos no cultivo (esta é a manchete) mas uma ampla cadeia consciente que percorre todas as etapas, desde o plantio até, acreditem o desperdício dos clientes. Engloba a sustentabilidade. Ou seja, não se pode se auto intitular um SER orgânico, se ao preparar e consumir o alimento por exemplo desperdiça muito do alimento gerando um lixo comestível e nutritivo.

 

Os olhos estavam fixos em mim, mãos se levantavam e discussões paralelas começavam a surgir. Este era o ponto mais importante que queria chegar naquela mesa redonda: o que era um consumo consciente e sustentável.

 

De verdade, eu acho que os orgânicos são melhores nutricionalmente, mas são mais caros e mais escassos. Algumas regiões do país sequer tem acesso à eles. Seria possível pautar toda uma alimentação em produtos orgânicos? A resposta infelizmente é um Não eloquente.

 

Atualmente não é possível. Por algumas razões: são poucos os produtores realmente certificados, pouca oferta de alimentos, pouco ponto de venda, preço às vezes inacessível, pouca variedade de produtos, não prática do conceito de sustentabilidade desde cultivo até transporte e distribuição do alimento e, claro pouco CONHECIMENTO de fato da prática orgânica geral.

 

Neste momento aquele grupo de pessoas entrou em alvoroço. O que devemos fazer então? Os alimentos estão contaminados, os contaminantes nos fazem mal, a lógica parecia simples...

Mas não é. Pelo simples fato de que vivemos no século XXI, temos que manejar as opções que temos.

 

O conhecimento é o caminho mais longo para uma jornada bem sucedida, então pedi silêncio e começamos a debater, pensar juntos.

 

Saber o que levamos para casa é passo fundamental na escolha dos alimentos. Se informe sobre os tipos de alimentos mais contaminados, o governo disponibiliza esta lista na internet.

Procure se informar sobre os produtores dos alimentos que compram, conhecer o produtos de verdade, para isso visitas à mercados e feiras e são essenciais. A maioria das pessoas sequer escolhem seus alimentos, um outro alguém o faz para elas, se este é o caso, ao menos oriente que o façam da maneira correta. Dê o primeiro passo.

 

Mas como não será possível se isolar numa bolha, comprar tudo do politicamente correto e evitar sua vida social, afinal não queremos criar histeria e neuróticos entrando nas cozinhas alheias para questionar a fonte do alimento usado,  o segundo passo será comprar a maior quantidade de alimentos orgânicos sempre que possível, contudo intercalar com os demais de cultivo tradicional e de fonte confiável, aumentando oferta dos alimentos e sua variedade.

 

Comprar alimentos da época, normalmente mais abundantes, menos contaminados (pela simples lógica que se está na época de crescer, demanda menos interferentes químicos de “ajuda”) e bem mais baratos. Afinal quanto mais cores, mais nutrientes e saúde do bolso também gera saúde do corpo e mente.

 

E, quem vê cara não vê nutrição. Um alimento feio não deve ser dispensado simplesmente, o feio por fora também é saudável por dentro, algo do tipo...viscoso mas, gostoso! Um machucado, uma deformidade ou uma batidinha muitas vezes nos fazem mandar para o lixo o que poderia alimentar uma família, o que mataria fome e preveniria doença de uma nação.

 

O quarto passo é técnico, melhorar a qualidade das escolhas. Incluir no seus dias mais alimentos vegetais. Menos industrializados altamente processados, consumir no mínimo 5 porções de frutas, legumes e verduras ao dia. Para isso, a busca de ajuda profissional se faz necessária. Mude o hábito, a cultura de nossa alimentação.

 

Chegamos ao quinto e talvez o mais complexo passo. Mas já temos uma dispensa cheia de sabor e cores variadas, de produtores mais corretos e com maior número de alimentos orgânicos, sazonais e até mais baratos por serem feiosos...então como aproveitá–los em sua integridade. Aqui está o pulo do gato: A cozinha da sua casa!

 

É neste cômodo que acontece a magia da prevenção e tratamento das doenças. Os alimentos comprados devem ser tratados com cuidado. A etapa inicial do processo se inicia logo após a compra, com a limpeza dos alimentos. A higienização adequada remove parte dos contaminantes (incluindo um pouco dos agrotóxicos) e sujidades. Um alimento guardado limpo dura mais que o alimento guardado sujo. Se dura mais, desperdiçamos menos, geramos menos lixo, gastamos menos dinheiro e aproveitamos mais nutrientes. Alimentos com leves batidinhas devem ser consumidos primeiro, separe–os para a preparação do dia. Cuide dos defeitos como um médico de seus pacientes. Não mutile o alimento somente por parecer feio. Não jogue comida boa fora.

 

Aprenda técnicas culinárias, use o alimento em sua integridade, transforme aquilo que lhe pareça duvidoso ao que a seus olhos seja apetitoso. Use partes que parecem não ser comestíveis, mas que na maioria das vezes o são. Talos, folhas, cascas e entrecascas são ricas em nutrientes, podem ser usadas nas receitas ou podem virar fertilizantes e adubos naturais para jardinagem. Cultive ervas em vasos. Pelo menos aproveitamos e evitamos desperdício. Não gere lixo.

 

Este é o foco de uma alimentação saudável: a alimentação consciente, sustentável e o que devemos praticar é colocar no prato a maior variedade possível de alimentos, que nos tragam maior aporte possível de nutrientes. Mesmo sabendo do empobrecimento nutritivo dos alimentos, devido aos solo e práticas convencionais de cultivo, se aumentarmos o consumo geral de vegetais, aumentamos as fontes nutritivas e portanto as fontes de saúde, podendo nos dar o luxo de desconhecer o caminho da farmácia.

 

O corpo trabalha com nutrientes, é disso que ele precisa para combater doenças, até mesmo aquelas geradas em parte, pelo próprio alimento consumido.

 

Lembremo–nos do mais importante: “Quando a dieta está errada, a medicina é inútil. Quando a dieta está certa, a medicina é desnecessária.” (Provérbio Ayurveda)

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Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.